domingo, 25 de maio de 2008

Na primeira pessoa

Nesse dia, depois das aulas, tinha vindo para casa estudar com dois colegas. No preciso momento em que se deu o primeiro abalo, por volta das duas e meia, estava deitado no sofá a descansar, e, quando o senti a baloiçar, a primeira coisa que imaginei foi o coreano a abanar-me para que regressasse aos livros de chinês. No momento em que abri os olhos e vi as caras de pânico dos meus amigos, percebi que era algo um pouco mais grave que isso.

Corri imediatamente para a ombreira da porta, como me ensinaram a fazer, há muito tempo atrás, nas aulas de ciências. Nos minutos que se seguiram (e é impossível precisar se foram 1, 2 ou 10), enquanto sentíamos o balanço compassado do apartamento do sétimo andar, fomos trocando opiniões sobre como lidar com o que se estava a passar, cada um de nós tentando esconder o melhor possível o medo que sentia. Lembro-me de ter dito algo do género: “ Se não passar disto acho que não vai haver problemas”. E não houve.

Para mim foi apenas um susto. Infelizmente, para um número ainda indeterminado de pessoas foi muito mais que isso. As zonas mais afectadas ficam relativamente próximas do epicentro e em Chendgu, a cerca de 100km, apesar da violência com que foi sentido o tremor, os danos foram reduzidos. Em minha casa, para além de um candeeiro de tecto que caiu e de alguns objectos que foram arremessados ao solo, não houve danos mais sérios.

Os vizinhos espanhóis vieram tocar à porta pouco tempo depois e corremos para baixo todos juntos. Quando lá chegámos, já o chão se tinha parado de mexer, e juntámo-nos a uma multidão em pânico que nunca mais regressou a casa.

Quase duas semanas depois, milhares de pessoas continuam a dormir na rua com medo das réplicas do terramoto. Apesar de poucos edifícios terem sido danificados no centro da cidade, a violência de alguns dos sismos que se têm sucedido deixam as pessoas com medo de que as estruturas, agora mais fragilizadas, das suas casas possam não resistir a mais um abalo.



terça-feira, 8 de abril de 2008

Ano novo casa nova

Apesar de continuar sem conseguir ler os contratos, sei que aqui, como em qualquer outro lugar, manter uma boa relação com o dono da casa é essencial para evitar problemas na hora de deixar o apartamento… mesmo que isso signifique beber vinho de arroz aquecido no micro-ondas para celebrar o início de uma nova amizade.

domingo, 6 de abril de 2008

Dores de dentes

Confesso que se tivesse que escolher um lugar para fazer um "root canal" num molar, a China não apareceria no topo da lista. Simplesmente porque é um povo com pouca tradição de ir ao dentista. A verdade é que a clínica me pareceu razoável, ainda que com as inevitáveis características chinesas (recepcionistas vestidos de fato e gravata de cores amarela e laranja, por exemplo).

Um "root canal" é uma intervenção um pouco mais complicada que tratar uma cárie, uma vez que envolve fazer um furo no dente e retirar alguns nervos (tenho preguiça de procurar na net, mas acho imagino que seja algo parecido com "desvitalizar um dente"), mas também não me parece que seja algo de muito complexo. A verdade é que desde que voltei para casa, esta tarde, já recebi sms e telefonemas da dentista e da enfermeira a perguntar como me sinto e se tenho dores.

Ainda não decidi se estou contente com a qualidade do atendimento ou simplesmente preocupado.

terça-feira, 25 de março de 2008

Chengdu

Com quase 11 milhões de habitantes, é a quarta maior cidade chinesa e a mais importante do Oeste do país. Não tem os arranha-céus de de Shangai nem os monumentos de Pequim, e muito menos a beleza melancólica de Shaoxing. Como destino turístico não passa de um modesto entreposto de viajantes com destino ao Tibete ou a outras zonas da província. Tem um clube de futebol na primeira divisão e é famosa pela sua cozinha e pelos pandas, que são, aliás, o símbolo da cidade. (Atenção, não se confunda uma coisa com a outra - o panda não faz parte da cozinha de Chengdu).

E porquê Chengdu? Seguindo uma velha receita aprendida com boa gente de Xangai, procurei juntar o útil ao agradável usando a fórmula BBB - Bom, Bonito e Barato. E acho que acertei em cheio. Tenho uma qualidade de vida que dificilmente poderia conseguir em outra cidade chinesa... a preços muito simpáticos. E o que falta do segundo "B" em Chengdu sobra nos arredores. Sichuan é talvez a província com as melhores paisagens naturais de todo o país, e fica apenas a 24h de comboio de Lhasa. Ou pelo menos ficava, quando os turistas ainda podiam lá ir.

segunda-feira, 17 de março de 2008

A violência chega a Sichuan

A notícia aqui:

Nota 1: Sichuan é uma das províncias que faz fronteira com o Tibete. Chengdu é a capital de Sichuan.

Nota 2: Por coincidência, alguns sites que normalmente estão acessíveis, como o youtube, deixaram de estar.

Nota 3: Como costuma acontecer, a cobertura feita pelos media chineses é muito distinta daquela que é feita pelos ocidentais. exemplo aqui

domingo, 9 de março de 2008

O regresso

Tive sorte. Saí da China no inicio do pior Inverno das últimas dezenas de anos e regressei precisamente quando as temperaturas já começam a atingir os dois dígitos. Alguns dias primaveris têm-se intercalado com outros em tons de Outono, e a única coisa que nunca muda em Chengdu é o Sol que nunca se deixa ver, escondido por trás de um manto gasoso.

Da última vez tinha vindo para trabalhar. Desta vez venho para estudar. Da última vez tinha um salário. Desta vez tenho aquilo que poupei desse salário. Da última vez fui para o Este. Desta vez vim para o Oeste. Da ultima vez senti o friozinho na barriga que antecede uma aventura no desconhecido. Desta vez sinto o friozinho na barriga proveniente da incerteza – por enquanto não tenho outra fonte de rendimentos senão as parcas poupanças do ano anterior. Depois há ainda a pergunta que desde o início me tem visitado quase todos os dias em diversas circunstâncias – estudar chinês terá sido a opção certa nesta altura da minha vida?

Cheguei há duas semanas e nem a falta de sol tem conseguido estragar a boa disposição e o sentimento de harmonia e equilíbrio. Deve ter sido a opção certa.


P.S. Obrigado a todos os que vão deixando comentários e peço desculpa por não responder, mas o facto de não poder aceder ao blog como utilizador não me permite fazê-lo

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

E ao terceiro mês...

... Tudo indica que este blog vai ressuscitar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Hasta Siempre Shaoxing

Terminada a aventura chinesa, iniciou-se hoje uma outra cuja unica certeza e' a data em que terminara' - Dia 19 de Janeiro, data do meu regresso a Lisboa desde Xangai. Escrevo este post ja do Sul do pais, onde vou atravessar a fronteira terrestre com o Laos e iniciar uma viagem de cerca de 5 semanas pelo Sudeste Asiatico. O plano e' descer o Laos, entrar no Cambodja pelo Norte e dai' seguir ou para o Vietname ou para a Tailandia.

Se o acesso 'a internet nao for muito complicado vou continuar a actualizar o blog com algumas noticias sobre a minha viagem... ou pelo menos com algumas fotos.

A "Shaoxing Redemption" terminou. Mas pode ser que volte com algumas diferencas no proximo ano. Uma delas vai com certeza ser "Shaoxing".

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Números (Eu cá não sou supersticioso)

O que têm em comum os prédios e os recém-nascidos chineses? Ambos começam por 1. Isto é, os prédios não têm andar zero (ou rés-do-chão, em bom português) e as crianças quando nascem vêm logo com um ano. Aqui, usando as palavras de um chinês amigo, “zero is nothing”.

As vantagens deste sistema não são tão evidentes quanto os seus riscos. Se por um lado posso tdizer que moro no 8º andar em vez de no 7º - E na China quanto mais alto é o andar maior é o status – por outro as questões que envolvem a idade de consentimento são algo mais delicadas. Pelo sim pelo não, convém perguntar sempre a data de nascimento e não apenas a idade.

Para além do zero, que se terá perdido algures entre a Índia e a China, existem outros números que, apesar de serem reconhecidos como tal, são alvos de descriminarão. Falo essencialmente do quatro, que, devido à sua pronunciação ser muito parecida com a da palavra “morte” é um número de que todos os chineses têm pânico. Um apartamento num 4º andar é mais barato que um no 3º ou no 5º, pela simples conotação de má-sorte que tráz consigo. Alguns construtores chegam mesmo a eliminar o 4 dos seus edifícios, substituindo-o por 3A, por exemplo, para tentar menorizar o prejuízo.

Em sentido contrário, outros números, tal como oito, são associados a boa-sorte, também devido a semelhanças de pronunciação com outras palavras mais simpáticas. Apenas para dar um exemplo, os números de telefone que tenham muitos oitos são mais caros.

Eu, vivendo no apartamento 808, fui logo bafejado pela sorte assim que cheguei a Shaoxing. Por outro lado, o facto do meu número de telefone acabar em 4, dá-me direito a promoções nos carregamentos!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Shanghai is not China

Eu e um colega chinês num bar em Xangai.

Ele (para o barman): Ni you re yin liao ma?
O Barman (para mim): What is he saying? I don't understand...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A perda da inocência

Hoje, pela primeira vez, comi cão... e gostei.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Coisas que só acontecem na China - II

Um autocarro urbano, a meio do seu percurso e cheio de passageiros, parar 10 minutos num posto de gasolina para abastecer.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Conversa de Discoteca

Ela: What's different in your country?

Eu (pensei): A música não é horrível; 80% das pessoas não estão nas mesas a beber e a jogar dados, mas sim na pista a dançar; a cerveja vem sempre fresca; há pessoas que se beijam; o rácio homens/mulheres é normalmente equilibrado; não se jogam jogos em que o perdedor tem que girar 10 vezes sobre si mesmo e depois beber um copo de penalty; não há gajos de tronco nu a simular combates de luta livre com os amigos... Ah, e quando estamos fartos deste lugar não pegamos nas bebidas e vamos para o bar do lado.

Eu (disse): Not much.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Pensamentos vagabundos

Uma das vantagens de eles comerem os cães é que não se anda constantemente a pisar dejectos.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Momentos especiais

Snow Mountain Music Festival em Lijiang. Não podia haver melhor forma de terminar uma viagem intensa como foi esta. Até sempre.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Caminhando na Garganta do Tigre que salta

O que faz das viagens momentos tão especiais? Não querendo responder pelos outros e sabendo desde logo que as motivações para viajar podem assumir contornos muito distintos, admito-me a arriscar uma explicação algo simplista: Permitem-nos afastar-nos, ainda que momentaneamente, do nosso quotidiano e das nossas rotinas. E, normalmente, quanto mais afastamos a nossa mente desse dia-a-dia melhor conseguimos aproveitar o (quase sempre escasso) tempo que temos para conhecer outros lugares. Viajar é uma forma de libertação que não tem muitos paralelos na vida moderna, e sua importância na vida das pessoas é um case-study fascinante.

Pela minha parte, admito o desejo, por vezes pungente, de fugir física e mentalmente para algum lugar que imagino sempre melhor, onde me possa recriar de acordo com a paisagem e as pessoas que encontro.


Penso nestas coisa, e em outras similares, e em outras completamente diferentes, durante os dois dias de caminhada por uma das gargantas mais impressionantes do Mundo – a Tiger Leaping Gorge. Penso em quantas pessoas já terão perdido a vida por estes remotos caminhos, engolidas por um derramamento de terra ou perdidas para sempre devido a passo em falso. Penso que os poucos caminhantes que encontro pelo caminho são sempre estrangeiros enquanto os chineses preferem percorrer, de autocarro, a nova estrada de alcatrão lá em baixo junto ao rio. Penso que o Baijiou sabe muito melhor quando bebido a meio de uma montanha numa esplanada sobre uma garganta, observando os cumes de neve em frente e conversando sobre coisas como estas e muitas outras.

Quarto com vista para o mundo por 3€

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Shangri-la, the city formerly known as Zhongdian

Uma cidade (re)baptizada com um nome que se passou a associar com um paraíso terrestre augura à partida um par de dias no mínimo interessantes. A primeira surpresa foi a quase ausência de turistas. Ou pelo menos das massas que se adivinhavam em mais um período festivo chinês.

Zhongdian é o início do mundo tibetano, “a flavour of Tibet if you can’t make it to the real thing” como dizia o guia do costume, e possibilita ao visitante (ou pelo menos a este) as primeiras férias da China dentro da própria China. A cidade velha é uma vila tibetana sorridente e bem conservada que, do alto dos seus mais de 3000 metros, convida o visitante a deixar-se relaxar ao sabor da cerveja local, carne de iaque e outras excentricidades que por estes lados são surpreendentemente bem toleradas.


Esqueço-me do plano inicial, se é que cheguei a ter algum, e deixo-me ficar, indolente, por alguns dias, perdido na vida tranquila deste mundo novo, calcorreando as ruas empedradas, absorvendo um pouco desse místico mundo budista nos fascinantes mosteiros locais e esquecendo-me por momentos do rebuliço da China moderna.

Mas a China moderna está à espreita. Os empresários do Oeste, impelidos pela acção de marketing governamental (o rebaptizado, leia-se) apressaram-se a investir nas actividades do costume e a descaracterização, aos poucos, vai-se começando a fazer notar.



As semelhanças com a Shangri-la de Hilton existem mas não são suficientes para imaginar a acção do livro neste local. Afinal, o que tornava Shangri-la tão especial era essencialmente a sua inacessibilidade, e 8 horas no pior autocarro da China, com paisagens maravilhosas a cada curva, estão ao alcance de qualquer mortal.


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

É oficial...

... Foram, até ao momento, 256 dias consecutivos a comer arroz.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007