sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Coisas que só acontecem na China - II

Um autocarro urbano, a meio do seu percurso e cheio de passageiros, parar 10 minutos num posto de gasolina para abastecer.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Conversa de Discoteca

Ela: What's different in your country?

Eu (pensei): A música não é horrível; 80% das pessoas não estão nas mesas a beber e a jogar dados, mas sim na pista a dançar; a cerveja vem sempre fresca; há pessoas que se beijam; o rácio homens/mulheres é normalmente equilibrado; não se jogam jogos em que o perdedor tem que girar 10 vezes sobre si mesmo e depois beber um copo de penalty; não há gajos de tronco nu a simular combates de luta livre com os amigos... Ah, e quando estamos fartos deste lugar não pegamos nas bebidas e vamos para o bar do lado.

Eu (disse): Not much.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Pensamentos vagabundos

Uma das vantagens de eles comerem os cães é que não se anda constantemente a pisar dejectos.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Momentos especiais

Snow Mountain Music Festival em Lijiang. Não podia haver melhor forma de terminar uma viagem intensa como foi esta. Até sempre.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Caminhando na Garganta do Tigre que salta

O que faz das viagens momentos tão especiais? Não querendo responder pelos outros e sabendo desde logo que as motivações para viajar podem assumir contornos muito distintos, admito-me a arriscar uma explicação algo simplista: Permitem-nos afastar-nos, ainda que momentaneamente, do nosso quotidiano e das nossas rotinas. E, normalmente, quanto mais afastamos a nossa mente desse dia-a-dia melhor conseguimos aproveitar o (quase sempre escasso) tempo que temos para conhecer outros lugares. Viajar é uma forma de libertação que não tem muitos paralelos na vida moderna, e sua importância na vida das pessoas é um case-study fascinante.

Pela minha parte, admito o desejo, por vezes pungente, de fugir física e mentalmente para algum lugar que imagino sempre melhor, onde me possa recriar de acordo com a paisagem e as pessoas que encontro.


Penso nestas coisa, e em outras similares, e em outras completamente diferentes, durante os dois dias de caminhada por uma das gargantas mais impressionantes do Mundo – a Tiger Leaping Gorge. Penso em quantas pessoas já terão perdido a vida por estes remotos caminhos, engolidas por um derramamento de terra ou perdidas para sempre devido a passo em falso. Penso que os poucos caminhantes que encontro pelo caminho são sempre estrangeiros enquanto os chineses preferem percorrer, de autocarro, a nova estrada de alcatrão lá em baixo junto ao rio. Penso que o Baijiou sabe muito melhor quando bebido a meio de uma montanha numa esplanada sobre uma garganta, observando os cumes de neve em frente e conversando sobre coisas como estas e muitas outras.

Quarto com vista para o mundo por 3€

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Shangri-la, the city formerly known as Zhongdian

Uma cidade (re)baptizada com um nome que se passou a associar com um paraíso terrestre augura à partida um par de dias no mínimo interessantes. A primeira surpresa foi a quase ausência de turistas. Ou pelo menos das massas que se adivinhavam em mais um período festivo chinês.

Zhongdian é o início do mundo tibetano, “a flavour of Tibet if you can’t make it to the real thing” como dizia o guia do costume, e possibilita ao visitante (ou pelo menos a este) as primeiras férias da China dentro da própria China. A cidade velha é uma vila tibetana sorridente e bem conservada que, do alto dos seus mais de 3000 metros, convida o visitante a deixar-se relaxar ao sabor da cerveja local, carne de iaque e outras excentricidades que por estes lados são surpreendentemente bem toleradas.


Esqueço-me do plano inicial, se é que cheguei a ter algum, e deixo-me ficar, indolente, por alguns dias, perdido na vida tranquila deste mundo novo, calcorreando as ruas empedradas, absorvendo um pouco desse místico mundo budista nos fascinantes mosteiros locais e esquecendo-me por momentos do rebuliço da China moderna.

Mas a China moderna está à espreita. Os empresários do Oeste, impelidos pela acção de marketing governamental (o rebaptizado, leia-se) apressaram-se a investir nas actividades do costume e a descaracterização, aos poucos, vai-se começando a fazer notar.



As semelhanças com a Shangri-la de Hilton existem mas não são suficientes para imaginar a acção do livro neste local. Afinal, o que tornava Shangri-la tão especial era essencialmente a sua inacessibilidade, e 8 horas no pior autocarro da China, com paisagens maravilhosas a cada curva, estão ao alcance de qualquer mortal.


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

É oficial...

... Foram, até ao momento, 256 dias consecutivos a comer arroz.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Os polícias virtuais...

... Ou um eufemismo para censura. Adiante, alguns excertos de um artigo do jornal de referência China Daily - jornal generalista chinês, escrito em língua inglesa:

Two "virtual" police officers will start surfing the net from Saturday to help combat pornography and other illicit activities (...)
They will be on the watch for websites that incite secession and promote superstition, gambling and fraud (...)
"It is our duty to wipe out information that does public harm and disrupts social order" Zhao Hongzhi, deputy chief of the bureau's Internet surveillance center, said. (...)
"The virtual police officers will faithfully fulfill their duties, listen to the suggestions of netizens and protect them from harm", Zhao said.

PS: E eu continuo sem acesso, entre outros sites, a blogs, mas sempre atento às novas formas de contornar o problema (sendo que algumas dessas formas vão sendo descobertas e... censuradas! Para proteger o cidadão chinês desses terríveis vícios ocidentais, claro)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Outras impressões de Macau

Já tinha ouvido falar, há muitos anos atrás curiosamente, de uns spider-man que existiriam em Macau e que utilizariam as suas habilidades para fins menos honestos que o original da banda-desenhada, e que, devido a isso, muitos moradores seriam forçados a colocar grades nas janelas e varandas das suas casas. Não sei se estes artistas continuam a existir e, caso ainda existam, duvido também que sejam um exclusivo de Macau.

O que é certo é que as grades existem mesmo e alguns dos cenários que criam não deixam de impressionar.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

terça-feira, 11 de setembro de 2007

A ilusão de um breve regresso a casa

Ruas cujos nomes fazem sempre sentido, restaurantes que incluem bacalhau e caldo verde na ementa e a, maravilhosa e única, calçada portuguesa são apenas algumas das pequenas coisas que fazem de uma visita a Macau algo de especial para um português. Isso e os casinos, claro.

Surpreendeu-me, por um lado, o património histórico muito bem preservado, a fazer lembrar o centro histórico das mais bonitas cidades portuguesas, e, por outro, o facto de poucas pessoas saberem falar o idioma dos colonizadores. Quer dizer, confesso que esta última não foi bem uma surpresa, uma vez que já muita gente mo tinha dito. Aquilo de que não estava mesmo nada à espera era que conduzissem pela esquerda. Contingências de ter um vizinho chamado Hong Kong, presumo.



segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Coisas que também acontecem na China

O meu pai, acérrimo defensor da teoria de que nada se deve poisar sob pena de ser deixado esquecido para toda a eternidade, deixou, precisamente no último dia da sua estadia chinesa a pequena mala de cintura onde tinha carteira, máquina fotográfica e, ainda mais importante, passaporte, no restaurante japonês onde tomámos o último almoço em Shaoxing. Nada de excepcionalmente grave pensámos. Mas estávamos errados.

Vinte minutos passados no restaurante conversando com empregados e, poucos, clientes foram adensando uma atmosfera kafkiana em que estranhamente ninguém fazia ideia do paradeiro da mala que o meu pai, juraria a pés juntos se se recordasse de como o fazer, havia deixado pendurada no braço da cadeira apenas alguns mintos atrás

Ingénuo, recusei-me a acreditar que um dos empregados a teria escondido. Este tipo de coisas não aconte na China. Não é fácil explicá-lo, mas há um misto de ingenuidade e subserviência que caracteriza os empregados chineses em geral, que simplesmente afasta a hipótese de que teriam o desplante e coragem de roubar os pertences de alguém. Estrangeiro, ainda por cima.

Começo a desconfiar do casal de clientes que saiu pouco depois de nós termos voltado para buscar a mala enquanto ligo para o consulado de Xangai para receber notícias pouco animadoras sobre o tempo necessário para conseguir um novo passaporte e visto. Eu já perdi as esperanças de encontrar seja o que for e o meu pai vai ter direito a mais uma semana de férias na China. Penso na mala como um custo afundado. Agora preocupo-me apenas em como mandar o meu pai de volta para casa o mais depressa possível.

É preciso uma declaração da polícia e as esperanças que tinha perdido de encontrar a mala do meu pai reaparecem quando sinto o olhar nervoso da empregada ao ser confrontada com o meu pedido para que chame as autoridades. Afinal nada está perdido, basta insistir que se chame a polícia imediatamente até que, por milagre, a mala volte a aparecer, com o conteúdo intacto.

Foi simultâneamente um alivio e uma sentimento de raiva e desolação... até porque era um dos meus restaurantes preferidos.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Coisas que só acontecem na China

Regressar de Hong Kong tarde com os meus pais e irmã e contratar, a um dos muitos angariadores omnipresentes nas chegadas dos aeroportos, uma viagem, naquilo que até ao momento pensávamos que seria um táxi, para percorrer os cerca de 40 km que nos separam de Shaoxing.

Achar estranho quando o angariador/presumido-taxista-até-ao-momento nos encaminha para um dos balcões do aeroporto, de onde uma das senhoras nos acompanha até ao parque de estacionamento subterrâneo.

Esperar 5 minutos por um carro pequeno e velho. É uma viagem de meia-hora... que se lixe, sempre é melhor que ir de autocarro.

Ter que engolir o facto do condutor, de modos rudes e pouco amigo de conversas, nos levar por caminhos secundários esquecendo-se da moderna auto-estrada que liga o aeroporto a Shaoxing.

Escutar a minha mãe em pânico no banco de trás quando o condutor encosta numa berma escura num local que dificilmente poderia ser mais ermo, onde está já um carro parado à nossa espera.

Pressentir o meu pai em sobressalto quando reparamos que o carro que está à nossa espera não tem matrícula e que, para além disso, acaba de parar outro carro atrás de nós.

Engolir em seco e convencer os meus pais (e a mim próprio) que está tudo bem e que na China estas coisas são mesmo assim. Provavelmente, aqueles simpáticos senhores ainda acabariam a noite connosco a comer umas espetadas de poodle e a dizer poemas da dinastia Tang.

Efectuar o transbordo para o carro da frente, ao som dos gritos de uma menina sentada na estrada não muito longe de nós, tentando dominar o aperto que sinto no coração e nunca mostrando fraqueza perante a família assustada.

Prosseguir viagem na viatura sem matrícula pensando que se estivesse num país da América Latina, ou mesmo no meu, por esta altura algo de muito grave já teria acontecido.

Respirar fundo quando por fim chegamos a Shaoxing e pensar que na China estas coisas são mesmo assim.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Ainda a Globalização

Antes de vir para a China nunca tinha comido um hamburger no KFC nem no Hard Rock Café. Nunca tinha tomado um café no Starbucks e nunca tinha feito compras no Wall Mart nem no Metro. Tinha uma ideia do que era o Hooters, mas nunca pensei que o conceito seria adaptável à China até o ter visto com os meus próprios olhos.

As grandes multinacionais entram e vão-se expandindo no país de uma forma sem precedentes, sob o olhar atento de um Partido que ainda se chama de Comunista mas que se poderia chamar outra coisa qualquer. Empresas como a General Motors, encontraram uma tábua de salvação no mercado chinês, quando a operação no próprio mercado de origem há muito tinha deixado de ser rentável.

Os arcos dourados, símbolo supremo da globalização das empresas

Por outro lado, a nova geração de chineses é consumidora compulsiva de internet e jogos em rede, ao ponto de já existirem no país clínicas para ajudar os mais adictos a ultrapassar o seu vício. No meio deste país em plena convulsão económica, apesar de os blogs continuarem a estar inacessíveis, até já é possível encomendar pizzas e marcar viagens de avião usando apenas o Messenger!

Não é fácil compreender a mentalidade dos chineses, que por um lado são orgulhosos e nacionalistas mas ao mesmo tempo veneram aquilo que vem de fora; que são empreendedores e informados mas que não demonstram qualquer interesse por mudanças democráticas que no Ocidente há muito teria sido exigidas. Mas o que é certo, é que adoptando de fora aquilo que lhes interessa e mantendo o essencial da sua própria cultura, vão construindo um modelo de desenvolvimento único no mundo e, até mais ver, de grande sucesso.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O tempo

Costuma dizer-se que, na vida, existem apenas duas coisas certas – a morte e os impostos. Não concordo com nenhuma delas. Existem inúmeras e comprovadas formas de fugir tanto aos impostos como à morte, sendo que apenas alguns iluminados conseguem escapar desta última. A única coisa que, quanto a mim, é inevitável é o passar do tempo. Somos livres de tomar as decisões que bem entendamos e a imaginação é o único limite para as diferentes vidas que podemos viver, mas nunca qualquer opção que tomemos poderá, de forma alguma, contornar ou alterar a duração de um minuto ou de um ano.

Nada como a inevitabilidade do passar do tempo me faz sentir tão pequeno, e isso, na maior parte das vezes, nem é mau, é quase libertador.

Esta reflexão chega num período em que vejo o tempo que me resta na China a escorrer-me entre os dedos. Por mais força que usemos para segurar o punhado de areia que temos nas mãos, ele acaba sempre por nos fugir. Os poucos grãos que conseguimos segurar não serão mais que as memórias dos bons momentos que ficarão connosco para sempre.

Esta impossibilidade de segurar o tempo, principalmente quando se avizinham períodos de decisões, é menos libertadora do que angustiante.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Globalização é...

... ouvir Raeggeton (uma espécie de hip hop gangster porto-riquenho, para quem não conhece) numa discoteca na China.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Dias maus

- Do que gostas menos na China?
- Há muitas pequenas coisas que me irritam naqueles dias em que parece que tudo corre mal.
- Que tipo de coisas?
- Passarem-me à frente nas filas é provavelmente a que mais mexe com o meu sistema nervoso.
- E como reages?
- Nos dias bons reajo com humor. Nos dias maus pode variar entre a cara de poucos amigos e o esquartejamento. Normalmente limito-me a dizer baixinho “animais”.
- E, dessa forma, não te estarás também a comportar como um animal?
- Quando digo baixinho “animais” não me excluo do grupo dos destinatários.
- Então desde que te incluas no grupo de destinatários da mensagem podes chamar o que quiseres a quem quiseres?
- Posso. Desde que fale em português até posso chamar-lhes coisas muito piores.
- Não te conhecia tão ácido.
- Estou a ter um dia em que parece que tudo corre mal.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A morte das verdades

- Do que gostas mais na China?
- Gosto das diferenças.
- São muitas?
- Começando nas aparentes e acabando nas ocultas, não são poucas as que existem sobre o mesmo fundo de humanidade.
- E porque gostas delas?
- Porque me permitem questionar todas as minhas verdades. De facto, sinto que as verdades deixaram de existir.
- O que existe então?
- Existem opiniões.
- E a China conseguiu mudar as tuas opiniões?
- São as experiências e a reflexão que mudam as opiniões e não os lugares.
- E as tuas experiências na China mudaram as tuas opiniões?
- A idade vai-nos tornando mais cépticos. Ou conservadores. Eu continuo um optimista.
- Em que acreditas?
- Em quase nada.

- Acreditar em Nada continua a ser acreditar em alguma coisa.