sexta-feira, 27 de julho de 2007

O novo meio de transporte

Rendi-me às evidências e comprei uma bicicleta. Havia vários incentivos para o fazer: A cidade é pequena e plana, as bicicletas são baratas e são um meio refrescante de locomoção, quando não se pedala com muita velocidade, obviamente. Por outro lado, os táxis são muito baratos e têm ar-condicionado... mas a principal razão por que não comprei uma bicicleta assim que aqui cheguei foi mesmo o medo de voltar para casa dentro de um paralelepípedo de madeira depois de ter sido atropelado por um camião de suínos que não parou no sinal vermelho.


Hoje em dia, completamente adaptado às diferentes regras de trânsito em vigor por estes lados, já sou eu quem não respeita qualquer convenção imposta pela minha matriz ocidental e, para espanto até dos nativos mais temerários, atravesso qualquer rua em qualquer circunstância, independentemente do tom cromático do bonequinho que dita as acções dos peões.



Agora, em cima da minha bicicleta comprada em promoção no recém-inaugurado Carrefour, que ao fim do primeiro dia já fazia todo o tipo de ruídos como que a anunciar a sua breve partida para o mundo dos defuntos, sinto que ganhei uma nova vida, uma nova vontade de enfrentar a Jiefang road (a única verdadeira rua de Shaoxing) e de me perder nas ruelas que nela desembocam.

Montado na minha bicicleta, qual Quixote em cima do seu Rocinante, anseio por lutar contra os moinhos de vento das ruas de Shaoxing.

Ou então sou apenas mais um chinês em cima de uma bicicleta.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Mito nº 1 - Os chineses comem tudo o que mexe

Existe um ditado, salvo erro originário do Sul da China (ou será do Norte?), que diz que todos os animais que caminhem de costas para o céu se podem comer.

Se é certo que seria impensável encontrar em Portugal (ou em qualquer outro país europeu, para esse efeito) muitos dos petiscos que já vi por aqui, não é menos verdade que na maior parte dos restaurantes que frequento nunca encontrei cão no menu... nem baratas, nem macacos, nem nenhum outro animal com potencial para nos tirar o apetite.


Escorpiões, estrelas do mar e baratas só os encontrei no Norte e em locais específicos para espantar os turistas. Não duvido que existam em outros lugares mas a verdade é que à maioria dos chineses que conheço nunca passaria pela cabeça enfiar na boca um animal que vive nos esgotos.

O Macaco continua a ser um mito por desvendar. Não tenho provas que não se coma nem do contrário. Mas mais uma vez, acredito que haja lugares onde seja possível encontrar, apesar de não existirem propriamente macdonald’s locais a vender miolo de macaco com topping de morango.



Por último, o melhor amigo do homem é em geral bastante apreciado. Garantem-me que é melhor que qualquer outra carne e que é um alimento muito “quente” (calórico?) e, logo, óptimo para o Inverno. Nunca a encontrei à venda no supermercado nem nos restaurantes “melhorzinhos” mas é um facto que ela anda por aí.

No Sul, na província de Guangxi, era comum encontrar nas típicas tascas de rua o animal retratado em baixo. Se olharem com atenção, conseguem distinguir, entre uma série de elementos indistinguíveis, um animal com uma cauda comprida. Alguém consegue adivinhar do que se trata?

terça-feira, 17 de julho de 2007

Fugindo ao calor

Com os termómetros a atingirem preocupantes 38 graus, acompanhados por humidade sempre na casa dos 80%, tem sido uma preocupação constante encontrar alternativas refrescantes aos ares-condicionados caseiros. Excluindo, à partida, as piscinas públicas (por falta de sex-appeal)e a praia (por manifesta impossibilidade prática), os lagos são os melhores companheiros de fim-de-semana.

Nanjing foi uma agradável surpresa, com o seu lago-género-piscina-do-povo, mas Shaoxing rapidamente ganhou a dianteira, com uma fantástica lagoa de água tépida e transparente. Podem não ter os encantos da praia de Faro, mas também não têm os problemas de falta de estacionamento

Nanjing

Shaoxing

sexta-feira, 13 de julho de 2007

O Centro do Mundo

Representação chinesa do mapa-mundo

O Etnocentrismo consiste, grosso modo, em considerar uma cultura, normalmente aquela de que fazemos parte, superior a outra. Em países como a China, onde a população tem hábitos que dificilmente poderiam ser mais distintos dos nossos, é fácil ceder à tentação de considerar que a nossa cultura é melhor que a deles e o que não falta são motivos para o justificar. O que falta muitas vezes é um pouco de ponderação para questionar quais as razões que justificam essas diferenças. E normalmente elas sobram.

Eles cospem para o chão, não respeitam filas nem prioridades, empurram-se uns aos outros nos transportes públicos... a lista é interminável e é em argumentos como estes que os ocidentais se sustentam quando consideram a sua cultura superior.

Eu não gosto que me empurrem no metro (quando vou a Xangai, leia-se), faz-me impressão, mais que o acto de cuspir em si, o ruído que o precede, e (e esta é uma das pequenas coisas que mais me incomoda) não suporto a forma como eles sorvem ruidosamente o chá. Os modos à mesa, por outro lado, que já causaram momentos de indisposição a algumas visitas recentes, já deixaram de me incomodar.

Tenho as minhas razões para acreditar que as comparações entre culturas (principalmente quando envolvem os termos “superioridade” e “inferioridade”) são normalmente nefastas e pouco construtivas. Principalmente quando falamos de um país como a China onde, há muito pouco tempo, foi cometido um dos maiores atentados contra a Cultura jamais testemunhados e que, ironicamente, ficou conhecido como Revolução Cultural. Afinal o Mundo é um moinho, e o que hoje é dado como adquirido amanhã pode já não ser verdade. Tudo bem, ninguém pode negar (e nenhum chinês com o mínimo de bom-senso o nega) que as filas são um método muito mais eficiente que o “tudo ao molho e fé em Deus”, mas se é verdade que há coisas que eles podem aprender connosco (e já o estão a fazer), não é menos verdade que o oposto também é possível.

No fundo, aquilo que pretendo dizer é que todos nós temos os nossos telhados de vidro, e que cuspir para o chão é um crime muito pequeno quando comparado com colonizar e escravizar metade do mundo.

Polémicas à parte, aquilo que para mim tem sido mais interessante nesta experiência é, sem dúvida, a forma como me permite questionar tudo aquilo que eu dava como adquirido em função da minha “matriz ocidental”. Nós habituamo-nos a olhar para nós mesmos como o centro do Mundo. Estudamos a História Europeia e chamamos-lhe História Mundial e os nossos role-models pertencem cada vez mais à elite cultural dos ex-colonizados norte-americanos.

Esta experiência na China tem-me permitido mergulhar numa cultura que se vê a ela própria, em função da dimensão do país e das história milenar, como o Centro do Mundo. Com a vantagem de nos conhecerem muito melhor a nós do que nós a eles. Os ídolos mundiais ocidentais do desporto e da música, por exemplo, até podem ser famosos aqui. Mas não substituem os ícones pop chineses e coreanos.

Aqui é estranho comer de faca e garfo, é considerado de gosto muito duvidoso usar as mãos para comer (e nós, ocidentais, usamo-las muitas vezes) ou assoar o nariz a um lenço.
A nossa comida é estranha. Da mesma forma que as pessoas que me visitam gostam de comer nos restaurantes locais “pela experiência” mas refugiam-se na comida ocidental o mais depressa que podem, também os chineses que visitam a Europa recorrem quase em exclusivo aos inúmeros restaurantes do seu país de origem que podem encontrar.

[A título de curiosidade, este fim-de-semana, no aeroporto de Xangai, vi uma família chinesa, com problemas de excesso de bagagem, a transportar quantidades de noodles instantâneos e carnes secas suficientes para alimentar um pequeno exército durante 2 semanas.]

É tentador olhar para os chineses com olhos de ocidental e perguntar-lhes porque é que eles ainda usam pauzinhos para comer. Mas, muito mais interessante, e também mais difícil, é olhar para nós próprios com olhos de chinês e perguntar porque é que nós usamos faca e garfo. (metáfora inspirada em factos reais)

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Gosto de ir a Xangai porque...

... posso almoçar picanha num restaurante brasileiro e jantar bacalhau num restaurante português!

quarta-feira, 27 de junho de 2007

segunda-feira, 25 de junho de 2007

O país do futebol

Na China, como em quase todo o Mundo, somos o país do Figo e, cada vez mais, do Cristiano Ronaldo. Aqui toda a gente conhece o nosso cantinho europeu, ao contrário de muitos norte-americanos que têm tendência para nos situar na América do Sul.

Acrescente-se que comparar estes dois países não tem nada de aleatório, já que a China e os EUA têm muito mais em comum do que aquilo que se possa pensar – São ambos países enormes e ambos têm a percepção de que são o centro do mundo. A diferença é que no Império do Meio, para além de nos associarem a Macau, o futebol já conquistou as massas, ao contrário do que acontece nos EUA, onde continua a ser um desporto de nicho.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

A cidade dos Jogos Olímpicos

Beijing, a histórica capital do império, prepara-se para mais um grande desafio, à altura dos muitos com que se deparou durante a sua longa vida.

Desta vez, não se trata da invasão dos vizinhos mongóis nem da aliança anglo-francesa, muito menos do ímpeto destruidor das brigadas vermelhas, mas sim da organização de um dos maiores eventos desportivos à escala mundial – os Jogos Olímpicos.

Neste enorme metrópole, já de si uma das cidades mais poluídas do mundo, a atmosfera torna-se quase irrespirável sob o peso do pó libertado pelas obras necessárias para a recepção do evento. E não se trata apenas de construir e remodelar infra-estruturas desportivas, mas também, de melhorar os actuais acessos e de restaurar o património histórico da cidade de forma a impressionar o visitante estrangeiro, já no ano que vem.

Para se ter uma ideia da dimensão do fenómeno, consta que todas as obras deverão estar concluídas até Dezembro deste ano, de forma a permitir que toda a poeira assente!

Contudo, um dos desafios que mais preocupa as autoridades chinesas, é o de saber se a população estará preparada para deixar uma boa imagem na comunidade mundial, uma vez que aqui o conceito de civismo é muito diferente daquele a que fomos habituados pelos nossos padrões ocidentais. Cuspir para o chão, arrotar e não respeitar passadeiras, por exemplo, são hábitos perfeitamente normais e aceitáveis, que a maior parte das pessoas não encara como falta de educação.

O Governo chinês já encetou uma campanha de sensibilização, para tentar minorar o choque cultural que se adivinha, incluindo a substituição de centenas de sinais públicos com traduções erradas para o inglês (o famoso “chinglish”).

Eu espero voltar antes dos Jogos, mas, pelo sim pelo não, aconselho a todos que esperem pelo menos até ao Verão do ano que vem se fizerem tenção de visitar a grande capital.

Adivinha-se uma tarefa hercúlea... mas não nos podemos esquecer que estamos a falar da mesma civilização que construiu uma muralha de sete mil quilómetros!

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Marketing espanhol

Não é segredo para ninguém que vivemos ao lado de um dos mais importantes destinos turísticos a nível mundial - Os nossos hermanos não só possuem um inegável conjunto de atractivos, como ainda os promovem bem. Vendem-se como um país de fiesta e de cultura... e começam a fazer o mesmo no maior mercado emergente do mundo.

Nanjing Road (a artéria comercial mais importante de Xangai)

terça-feira, 12 de junho de 2007

Todos os chineses são bilingues? (e o país dos dentes de uva)

Uma parte considerável dos chineses são efectivamente bilingues. Isto é, são nativos tanto no seu dialecto local como no Mandarim – o idioma oficial nacional. As excepções à regra encontrar-se-ão em Beijing – Onde o Mandarim corresponde, grosso modo, ao dialecto local – e nas regiões menos desenvolvidas do interior, onde o Mandarim não é falado com tanta preponderância.

Inglês? Digamos que se um estrangeiro quiser sobreviver na China, um bom curso de linguagem gestual será uma mais-valia muito mais importante que qualquer palavra em inglês que saiba dizer. Continua a ser uma raridade encontrar alguém que consiga articular algumas palavras no idioma de Shakespeare, particularmente à medida que nos formos afastando da capital económica, Xangai.

No pouco tempo que levo aqui já aprendi o suficiente para impressionar visitas estrangeiras (aquelas que não falam uma palavra do idioma, naturalmente) mas ainda estou muito longe do mínimo necessário para compreender uma conversa que seja entre dois chineses (apenas, por vezes, o assunto, quando reconheço 3 ou 4 palavras familiares). Apesar de tudo, começo a entrar numa fase de aprendizagem em que já vou fazendo algumas associações entre palavras novas e antigas e vou descobrindo novos significados para vocábulos já adquiridos. Por exemplo, uma das primeiras palavras que aprendi foi “meimei”, que significa “irmã mais nova”. Mas só depois de saber que “meinu” quer dizer algo do género “moça bonita” e que “nu” é um vocábulo utilizado para o sexo feminino, é que percebi por que é que é prática mais ou menos corrente chamar as empregadas dos restaurantes de “meimei”. É algo do estilo: Oh “bonitinha/irmãzinha” trás-me aí uma chávena de chá, se faz favor!

“Mei”, por si só, quer dizer algo como “bonito”. No entanto, nunca se utiliza apenas “mei” ou apenas “nu”. São vocábulos que perdem o significado quando assim soltos, precisando de um prefixo ou sufixo para quererem dizer alguma coisa.

Os nomes dos países estrangeiros são adaptados para o chinês através de aproximações fonéticas, utilizando, naturalmente, os caracteres chineses para esse efeito. Os resultados algumas vezes são interessantes e outras não têm significado absolutamente nenhum. Senão vejamos, hoje já aprendemos que “mei” quer dizer “bonito”. Se a isso juntarmos que “guo” significa país, percebemos que "Meiguo" (Estados Unidos da América) é nada menos que “país bonito”. A Alemanha também não se pode queixar da sorte, uma vez que “Deguo” siginifica algo como “país de princípios”.

O nome do nosso pequeno país à beira mar plantado foi baptizado de “Putaoya”, que, por pura coincidência sonora, significa “dentes de uva”. Não é propriamente um nome muito sexy, mas resta-nos a consolação de ainda haver pior – os nossos vizinhos de península (Xibanya) vivem em “dentes do turno Oeste”.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Lentidão

O riquexó é talvez o meio de transporte mais característico da China. Apesar de já não ser possível encontrá-lo nas maiores cidades (confesso que não sei se por impossibilidade prática ou se por proibição legislativa), é ainda um meio de locomoção bastante comum em meios mais pequenos e, preferencialmente, planos. Tal como é Shaoxing. Apesar da proliferação de táxis, que normalmente existem em número superior ao dos carros particulares em qualquer cidade chinesa (ou pelo menos é essa a impressão que dá!), o riquexó vai sobrevivendo... por enquanto.



É muito mais lento que um táxi normal e provavelmente é também mais inseguro (se bem que as manobras dos taxistas chineses insistem em desmentir este último argumento). O preço é negociável e normalmente um pouco mais baixo que a bandeirada do Volkswagen Santana. Na maior parte das vezes não o suficiente para compensar a diferença na duração da deslocação num Mundo em que, cada vez mais, o tempo é dinheiro.


Pela minha parte, inicialmente avesso a viajar no atrelado de uma bicicleta, fui-me, pouco a pouco, rendendo à lentidão do riquexó e, embalado pelo ruído da corrente, fui percebendo que a forma mais rápida de deslocação entre dois pontos é quase sempre a menos interessante.

Num mundo em que a eficiência tecnocrata substitui aqueles que deveriam ser os valores mais importantes, as pessoas apressam-se de um lado para o outro numa frenética tentativa de “optimizar” o tempo, a mesma que as leva a querer visitar “o máximo de lugares possível” quando vão em viagem. Eu recuso-me a alinhar pelo mesmo diapasão e sempre que puder vou viajar de comboio em vez de avião, de riquexó em vez de táxi, e a pé, lentamente, vendo o dia passar, em vez de correr e esquecer o que há à minha volta.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Quatro meses

Fez, por estes dias, 4 meses desde que a aventura chinesa se iniciou. É cedo para fazer balanços, mas é uma altura extremamente oportuna para uma das clássicas comparações “antes e depois”. Como a que a Rita faz aqui.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Diferenças

Segundo conta a minha mãe, umas das maiores vergonhas que a fiz passar foi quando, ainda na Coimbra Natal, exclamei, alto e bom som, enquanto cruzava uma passadeira: “Mãe, aquele senhor tem a cara pintada de preto!”

A expressão do primeiro contacto consciente com um tom de pele diferente, no meu caso, reflecte a ingenuidade e pureza com que as crianças observam o Mundo. Lembro-me amiúde desta história quando me cruzo com crianças na China e revejo aquele que, imagino, terá sido o meu olhar de espanto, nos olhos amendoados de cada uma delas, fixando-me curiosamente.

Normalmente a curiosidade torna-se em vergonha quando as confronto directamente com o desconhecido e lhes mostro a língua ou lhes digo “hello”. Em lugares mais turísticos não escapo às objectivas dos pais que querem eternizar o primeiro contacto das suas crias com o Estrangeiro. Imagino, brincando, em quantas salas de estar chinesas já estarei eu, emoldurado.


Na China, a julgar pela capa do meu livro, sou efectivamente diferente e sinto-o cada dia nos olhares de crianças e adultos anónimos.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Putuoshan

O frio que se entranhou nos meus ossos durante os primeiros tempos da minha aventura chinesa começa já a dar lugar a um calor abafado que se adivinha insuportável nos meses vindouros. Foi neste pegajoso contexto que me propus iniciar a busca de uma alternativa refrescante ao clima urbano circundante.


Putuoshan é uma das centenas de ilhas que compõem o arquipélago de Zhoushan na costa de Ningbo, na província de Zhejiang, suficientemente próxima de Shaoxing para merecer uma visita de fim-de-semana e com atractivos mais que suficientes para a justificar – praia, marisco... e budismo. Putuoshan alberga uma das 4 montanhas budistas da China, o que a torna, para além de um famoso destino turístico, num importante local de peregrinação.



O tempo, incrivelmente quente durante toda a semana, resolveu presentear-nos com aguaceiros durante o tempo que passámos na ilha. O que, no fundo, talvez não tenha sido um mau presente, uma vez que refreou as nossas intenções de mergulhar numa água de cor, no mínimo, duvidosa! E se as praias dificilmente poderiam ter impressionado os excursionistas brasileiro e português, já os petiscos mostraram estar à altura do desafio, quer em variedade quer em qualidade, a fazer lembrar os saudosos festivais de marisco algarvios que se aproximam, tão perto e tão longe.


quarta-feira, 9 de maio de 2007

Longsheng, Guangxi (Dragon Backbone Terrace)

No norte da província de Guangxi, esconde-se mais uma das paisagens cartão-postal que decoram paredes de agência de viagem – os terraços de arroz de Longsheng. O pouco tempo disponível obriga a comprar a viagem-pacote que facilita o turismo mas simultaneamente o despoja da maior parte dos atributos que normalmente tornam o viajar uma experiência tão inesquecível. Se os pudesse concentrar numa palavra, essa seria a cada vez mais subvalorizada – improviso. Porque o improviso pode, sim senhor, fazer com que não “aproveitemos” tão bem o sempre escasso tempo disponível, com que não vejamos tudo aquilo que teríamos gostado de ver, mas é normalmente o improviso que nos possibilita os momentos mais inesquecíveis de qualquer viagem. Porque ninguém volta de Paris e diz que o melhor momento da viagem foi quando subiu ao topo da torre Eiffel. O melhor momento se calhar foi num café dos subúrbios a conversar com dois descendentes de árabes sobre sorrisos de francesas. Se calhar porque se confundiu o autocarro 23 com o 223. E isso não vem incluído em nenhuma viagem de pacote.


A evidência é que chegar a Longsheng sem ser através da viagem de pacote obriga a um despender do recurso Tempo, de que simplesmente não disponho (o recurso Paciência depende dos dias mas normalmente tenho de sobra). Rendo-me ao pacote e acordo antes das 7h da manhã de modo a ter todo o tempo do mundo para parar nos locais previamente escolhidos à hora previamente acordada onde as minorias étnicas nos esperam para nos presentear com os seus espectáculos tradicionais a troco de uma módica contribuição pecuniária. Adiante.



A pequena aldeia de Ping’An, em Longsheng, no Norte da província de Guangxi, tem cerca de 700 habitantes, todos pertencentes à minoria Zhuang. Têm o seu próprio dialecto (que me dizem ser mais próximo do vietnamita do que do chinês), a sua própria forma de vestir e as suas próprias tradições e costumes. A sua própria identidade.
Através de um engenhosos sistema de irrigação conseguem manter cultivos (maioritariamente de arroz) no topo das montanhas para onde foram “empurrados” no passado , o que lhes tem permitido garantir a sua subsistência desde há mais de 500 anos. O efeito visual é, contudo, impressionante e tem atraído nos últimos anos um grande número de visitantes. A chegada do turismo, ainda que em pequena escala, por enquanto, alterou o modus vivendi desta pequena sociedade e imagina-se que num futuro próximo as plantações de arroz sejam mantidas apenas para efeitos turísticos.



A paisagem, a construção, a simbiose homem-natureza são na realidade impressionante e mereciam mais algum tempo de deslumbramento. Tempo de que infelizmente não disponho. Sobra algum (tempo, claro) para, sempre a correr, tentar encontrar os ângulos que melhor ilustrem aquilo que as palavras normalmente se esforçam (quase sempre com pouco sucesso) por transmitir. Encontro dois ou três e volto a correr para baixo. Literalmente a correr.

Melhor momento do dia? Almoço numa esplanada a meio da montanha, em Ping’An, temperado com ideias sobre um pouco de tudo na companhia dos hermanos Ana e Orestes. O almoço não estava incluído no pacote.



segunda-feira, 7 de maio de 2007

Yangshuo, Guangxi

Aproveitei o feriado de Maio para rumar a Sul. Destino – Província de Guanxgi. Yangshuo, pequena cidade na margem do rio Li, popular destino para backpackers de todo o mundo, foi o local escolhido como base de exploração da zona.


A paisagem rural circundante é uma das mais famosas e reproduzidas de toda a China, ilustrando, por exemplo, o verso das notas de 20 Yuan. O rio e seus afluentes, que banham a maior parte das povoações da zona, estendem-se por entre intermináveis planícies de arroz das quais se erguem, imponentes e misteriosas, colinas de um verde luxuriante, concorrendo para a criação de um cenário absolutamente fantástico, por onde me perdi sobre duas rodas e onde dormitei, mais tarde, embalado pelo motor de um barco local.



Pedalando entre colinas e arrozais, surpreendi-me com locais onde o tempo deixou de passar e com outros onde o turismo começa a fazer chegar novas formas de subsistência, tal como a esplanada improvisada na casa de um camponês de Liugong (uma das muitas pequenas aldeias perdidas por entre arrozais), que, aproveitando a magnifica vista para o rio de que dispõe, se decidiu a enveredar pelo universo dos serviços. Uma assoalhada, apenas com uma cortina como divisão para o quarto onde dorme toda a família, pode ser suficiente para construir um restaurante neste mundo onde o almoço é morto e depenado na hora e onde as inspecções sanitárias ainda não são senão uma miragem.


E que dizer da Lulu? Nascida camponesa, juntou a pouca vontade que tinha de passar o resto dos seus dias de costas voltadas para o Sol com um talento inato para falar inglês e tornou-se empresária, dona de uma pousada e três bares na mundana West Street da simultâneamente calma e agitada Yangshuo. O chinese dream come true?



A imersão neste universo natural deslumbrante, torna-o num destino idílico para quem procura um pouco de afastamento das buliciosas cidades chinesas. Não por acaso, para além de backpackers e omnipresentes turistas internos, misturam-se em abundância com a fauna nativa reformados europeus e americanos.

Despeço-me de Yangshuo, observando-a, serena, do topo de uma das colinas circundantes, com um sincero até breve, levando na bagagem agradáveis recordações e incontáveis sorrisos.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Deep feelings on the field – Crónica de uma expedição a Suzhou

Tal como Hangzhou, Suzhou foi descrita por Marco Polo, um dos mais notáveis viajantes de todos os tempos, como o “paraíso na Terra”. E podem até ter passado algumas centenas de anos desde a sua última visita mas a cidade mantém alguns dos encantos que maravilharam este apaixonado pelo Oriente, aos quais juntou eventualmente alguns novos (tendo, com certeza, perdido muitos outros).


É tentador chamar “Vezena do...” a qualquer cidade em qualquer parte do Mundo que seja atravessada por pontes e canais e onde naveguem pequenas e tradicionais embarcações (não temos nós, em Aveiro, também, a nossa Veneza portuguesa?). Suzhou é conhecida como a Veneza Oriental, mas tem encantos próprios que fazem com que a comparação com a cidade italiana seja absolutamente desnecessária. Afinal, não era o próprio Marco Polo... um veneziano?



É certo que atravessar de barco a parte antiga da cidade, aproveitando os momentos de sombra proporcionados pelas pontes centenárias (não arrisco o “milenares”, apesar do aspecto bastante usado de algumas), e saboreando uma agradável cerveja local, com nome sugestivo, a fazer lembrar relaxing times de outro filme, é uma experiência única e merecedora por si só de uma visita a Suzhou. Mas percorrer as estreitas e iluminadas ruas melodiosamente salpicadas por concertos de música clássica chinesa e lojas tradicionais, sentindo cheiros e cores diferentes que já deixaram de surpreender mas continuam a maravilhar, conferem a harmonia necessária ao passeio de fim-de-semana.


Suzhou é ainda uma cidade de jardins que, sem a espectacularidade do West Lake de Hangzhou, se tornaram um bom complemento para a primeira excursão efectuada na companhia do pequeno grupo que ficou conhecido como “a traineira algarvia”. Juntar um farense, um olhanense e um louletano na província de Jiangsu se não é inédito é, de certeza, no mínimo, um acontecimento raro! A traineira algarvia navegou sem problemas nas águas calmas dos canais de Suzhou e terminou a expedição com um inesperado corridinho à hora de almoço, a fazer lembrar os bons velhos tempos da tia Anica de Loulé!

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Quem não conhecia...

... Ficou a conhecer

terça-feira, 17 de abril de 2007

Shenyang

De visita à quarta maior cidade da China, a primeira sensação que me invade é de que o presente deve muito à história milenar da importante região da Manchúria. Shenyang é uma cidade que, na sombra do seu passado imperial, se tenta reerguer das cinzas após décadas de ocupação e destruição.

Centro Urbano

Sob o domínio dos Japoneses durante o início do século passado e reconquistada pelos soviéticos no final da II Guerra Mundial, foi a partir desta região, “encravada” entre a Sibéria, a Mongólia e a Coreia, que o exército comunista liderado por Mao iniciou a conquista da China continental. E foi depois desta conquista que Shenyang se tornou o berço da industria pesada chinesa, importada quase em exclusivo do poderoso vizinho de cima. O paradigma produtivo não mudou muito e actualmente a cidade continua a ser o grande pólo industrial do Norte da China.
Mas Shenyang é também a antiga capital original do império Qing, a última dinastia imperial chinesa, e, entre a impressionante dimensão (e confusão) do seu pólo urbano, é ainda possível visitar alguns dos monumentos mais importantes dessa época.


Palácio Imperial

Beiling Park

O Palácio Imperial é o segundo maior da China, depois, naturalmente, da Cidade Proibida de Beijing, e os túmulos erguidos em honra dos seus reis impressionam pela dimensão e sumptuosidade. Apesar do papel pouco significante da religião na cultura chinesa, a tradição confere um papel de extrema importância à vida depois da morte (o exército de Terracota em Xi’an é o exemplo mais significativo e monumental desta preocupação), pelo que nenhum pormenor é olvidado na hora de escolher o local onde o imperador descansará no seu sono eterno.

Beiling Park

Beiling Park

Em Shenyang senti-me numa China diferente daquela que conhecia até agora. Mais pobre e cinzenta. Mais triste. Mas onde, apesar de uma abertura menor, se nota nas pessoas o mesmo dinamismo e optimismo que caracteriza os chineses do Sul.

Em Shenyang senti-me diferente. Mais diferente do que me tinha sentido até agora em Zhejiang ou em Xangai. Voltar a Shaoxing foi, pela primeira vez, uma sensação de regresso a casa.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Uma aventura no Supermercado

Como quase tudo, as grandes multinacionais da distribuição já chegaram à China. Já não falta muito para chegarem também a Shaoxing (e logo no meu quintal), mas, por enquanto, as minhas compras continuam a ser feitas nos supermercados nativos, com tudo o que de interessante isso acarreta. Um supermercado na China é em quase tudo semelhante a um em Portugal, mas é nos pequenos detalhes que se encontram algumas diferenças reveladoras.

A disposição é quase sempre perfeita, como mandam os livros de marketing, obrigando-nos a percorrer todas as secções de artigos de ócio até chegarmos àquilo que viemos realmente procurar – a comida. Aqui começam as dificuldades, pois há alguns produtos básicos na nossa dieta que são simplesmente impossíveis de encontrar – Desde logo, pão, queijo e fiambre. A massa, quando há, está normalmente enfiada na secção de bens importados, juntamente com o único produto produzido em Portugal (não confundir com português) que já encontrei: as sardinhas em lata.

O arroz é a pedra basilar nas refeições chinesas e isso é evidente quando, no corredor exclusivamente destinado a este artigo, é impossível encontrar um pacote que contenha menos de 5 kg! Nunca comprei arroz.

A odisseia do arroz


O peixe, tal como nos restaurantes, escolhe-se vivo e é morto na hora, à nossa frente, como garantia suprema de que é fresco. Nunca comprei peixe.

Alguns dos petiscos disponíveis


No fundo, tratam-se apenas de pequenos pormenores que são explicados pelos diferentes hábitos alimentares e que, apesar de tudo, não causam grande estranheza. A minha maior surpresa foi descobrir que, na secção de produtos de higiene pessoal, não existe um único desodorizante. Segundo os chineses, os ocidentais apenas necessitam de usar este tipo de artigos porque... cheiram mal!